As enfermeiras

Aos mestres na arte do reclamar

Há um rol de reclamações que ouço diariamente amiúde no meu local de trabalho e que por respeito à profissão, à farda e em última instância à instituição que represento, ficam sem resposta à letra…

“Oh menina, isto vai demorar muito é que eu tenho mais que fazer… Isto dá tempo de uma pessoa morrer!”

Começa logo mal, não é uma casa de meninas nem a escola primária, logo, sendo um hospital eu sou apenas e só Enfermeira. Os outros são todos doutores e nós sempre as meninas. Nem sequer é pela licenciatura comum a todos, mas é pela distância necessária para que se estabeleça uma relação profissional, com base no respeito mútuo e com objetivo na melhoria do utente.

Segundo, se tem mais que fazer, escolhesse outro dia para vir de passeio ao serviço de urgência, sim porque quem faz este tipo de comentário tem no máximo uma unha encravada há três meses e ainda se queixa de esperar 2horas para ser atendido quando estão mais 80 utentes no serviço (entre ele mais 5 unhas encravadas pelo menos).

Por fim, mas não menos importante, dá sempre tempo para morrer, desde que nascemos a única certeza que temos é que vamos morrer, mas não se preocupe que a unha já esperou três meses, espera mais umas horas por si!!!

Veja lá a cor que me vai dar que vou já a correr escrever no livro amarelo!

Para que fique devidamente esclarecido, o Enfermeiro da triagem não está a dar pulseiras para a guest list do spot mais in do momento, nem tão pouco as cores da triagem são algum tipo de preferência cromática na lista da pantone. Existe sim um protocolo de triagem de Manchester cujo objetivo é organizar os cuidados prestados num serviço de urgência, identificando os doentes por nível de risco de vida face à queixa apresentada.

Amarela fico eu quando me ameaçam com o dito livro, principalmente se entram em cadeira de rodas afirmando convictamente que não conseguem andar há duas semanas e que ainda por cima a dor agravou quando mergulhou na piscina no fim-de-semana passado. Acredito obviamente que tenha agravado, porque se não consegue andar há duas semanas certamente que mergulhou de cadeira de rodas! Mas não se preocupe que o livro amarelo faz milagres, porque para ir a correr ter com ele já deve ficar novo mas olhe que a mentira, essa sim, tem perna curta!

“O médico mandou-lhe fazer injeções? Nem pense que eu levo isso, muito gostam vocês de agulhas, nem pensar que sou alérgico, quanto muito tomo um comprimido!”

Ora bem, o médico não manda nada, prescreve a terapêutica, normalmente injectável para uma maior eficácia e rapidez no tratamento.

Nós já não pensamos, aliás muitas das vezes limito-me a repetir gestos e palavras na esperança de não ter pensar que tirei um curso superior para isto! Além disso cada um leva o que quer, quando quer e onde quer, mas que me lembre ninguém convida ninguém a vir fazer ficha num serviço de urgência…

Outra das afirmações tais como muito gostam vocês de agulhas deixam-me sempre na dúvida se será mesmo masoquista ou só mesmo tolo visto que sabe que nós gostamos muito de agulhas e ainda por cima é alérgico (coitado) o que é que afinal veio ali fazer!? Para a próxima passe na farmácia antes para quanto muito tomar um comprimido que lhe trate as borbulhas no couro cabeludo ou então faça uma chamada para uma linha de apoio, assim estará a salvo de uma qualquer reação anafilática…

“Fui ao médico pedir análises, quanto tempo demoram? É que nem pense que vou esperar, vou-me já embora!”

Quando a conversa assim se inicia é dito e certo que vai dar banquete… Pois bem foi pedir análises como quem pede uma meia de leite (com espuma para mim, sff!) portanto vou já ali buscar o bloco para apontar o resto do pedido. Então sai um check-up à lá carte, com tudo o que tem direito, um hemograma porque é fraco, um ionograma porque está ácido, uma função renal porque já não filtra e já agora um teste de gravidez porque com tanta modernice, um homem pode estar grávido da barriga das pernas e nem se aperceber!

Já acima referi que evito pensar nestas situações, não vá não aguentar a tentação e dar-lhe a resposta que merece! Mas já agora pense você, acha mesmo que o problema é meu ou do médico se for embora? Pense só mais um pouco… Se não podia esperar 1-2h pelas análises (que veio pedir) tinha ido ao café trocava o check-up pela mini que já não devem ser horas da meia de leite e certamente saía de lá mais alegre e já não perdia tempo a ser hipocondríaco!

“Vamos lá a ver se despacham isto que sou eu que vos pago o ordenado”

Esta para mim é das melhores, confesso que nem sempre resisto a dar resposta! O vamos lá a ver se despacham isto dá-me logo vontade de responder: é já a seguir, também estou à espera que aquele doente agónico que já posicionei 4 x, aspirei 10x e a quem já coloquei 2 perfusões em curso, se despache mas ele não deve estar a gostar da cara do São Pedro e ainda está indeciso. Mas não se preocupe que vou já ali tentar despachar aquela senhora que está há mais de 2h em excesso de velocidade a bater a 160bpm/min, que já foi observada por 2 ou 3 especialidades médicas, que já fez meia-dúzia de terapêuticas, que já colheu sangue para análises e já as repetiu, que já tem dois acessos venosos, monitorização cardíaca e de tensão arterial, oxigenoterapia e perfusões em curso se decida a normalizar o ritmo cardíaco ou a parar de vez… Entretanto também já avisei o doente asmático que estava ali no canto desde manhã com broncospasmo que tem medicação prescrita de hora a hora, incluindo aerossóis e diuréticos, que não pode pedir o urinol de 5/5min e que o melhor é mesmo deixar de respirar porque já está a ocupar a minha atenção há demasiado tempo e tenho de me despachar porque há quem ache que manda no trabalho dos outros e pior na saúde dos restantes!

Ainda bem que é você que me paga o ordenado, podia começar por lhe pedir um aumento mas não seria justo. Vou pedir-lhe antes para correr de uma ponta do serviço até à outra às 4h da madrugada porque tocou a campainha da reanimação e há uma vida para salvar que não tem culpa de serem 4h, de o serviço estar cheio, de não ter parado 5min nem para ir à casa de banho. Ou peço-lhe antes para me substituir aos sábados para ir ao mercado comprar a fruta fresca e os queijos que tanto adoro, ou aos domingos para puder ir aos almoços de família. Ou para substituir as minhas colegas mães nas noites para não terem de ir deixar os filhos às avós ou estarem três dias sem os ver entres as noites. Já agora deixo-o já também escalado para o Natal, para a passagem de ano e para os restantes feriados e trocamos para ser eu a goza-los em casa ou onde quiser porque finalmente terei direito a eles.

Entretanto deixe-me só dar-lhe uma dica grátis para não ter mais gastos extra comigo, o subsídio de desemprego que esbanja, a reforma da mãe que usa e a pensão de morte do pai que ainda arrebanha não nascem do mesmo saco azul de onde supostamente me paga o ordenado, saem todos os meses destes mesmos bolsos onde hoje cabe apenas um garrote, uma tesoura e uma caneta, mas que estão cheios de tantos analfabrutos mestres na arte do reclamar.

Desabafos à parte, podem todos ficar descansados, cuido a todos de igual forma por saber respeitar esta profissão que escolhi, nesta farda que me orgulho e a instituição essa sim que me paga o ordenado.

Volto a confirmar, nos bolsos continua apenas o garrote, a tesoura e a caneta portanto um novo turno pode começar!

V.

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7 opiniões sobre “Aos mestres na arte do reclamar

  1. Ao rol de reclamações na triagem, poder-se-ia acrescentar muito mais, mas as do top são aquelas, em que pedem uma pulseira vermelha, porque o seu caso é sempre pior que o do vizinho do lado, nem que seja só uma diarreia!

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  2. Pingback: Recapitulando

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