As enfermeiras

Indigestão Selvagem

Demorei a escrever sobre isto, não por falta de tempo ou de inspiração para o tema mas por respeito à minha sanidade mental.

Ouvi atentamente a entrevista da Sra Ministra da Saúde na passada quinta-feira, atenta e pormenorizadamente, inclusive puxei algumas vezes para trás para ouvir repetidamente frases que a mesma proferiu e que eu incrédula não conseguia digerir à primeira.

Mas a minha indigestão mantém-se e por isso ouso descurar a sanidade a bem do aumento do peristaltismo.

Escrevi há tempos aos mestres na arte do reclamar onde respondi à letra a um punhado de um sem número de afrontas que recebia diariamente no serviço de urgência.

Hoje escrevo novamente para todos aqueles que sendo opinião pública se limitam a opinar a torto e a direito, não sobre factos, ideias ou objeções enraizadas em informação fidedigna e/ou fatos concretos mas apenas em churrilhos e balbuceios mais ou menos conscientes de meia dúzia de estarolas pagos para dar opinião sobre tudo e sobre todos só para encher grelhas televisivas ou lugares na bancada parlamentar.

Pergunto primeiro como cidadã de um país livre e democrático como pode uma ministra coagir publicamente alguém a não fazer greve?

Em seguida pergunto-me como contribuinte como há sempre milhões para pagar pensões vitalícias chorudas, resgates da banca, sacos azuis municipais, injeções de capital em empresas públicas e não sobram alguns milhões para remunerar devidamente uma classe profissional?

Depois posso perguntar como utente do sistema nacional de saúde quais são na prática as mais-valias do plano de contingência deste ano face aos planos de contingência anteriores para os picos de gripe de sempre?

Aproveito e pergunto também como profissional qual o objetivo de alterar uma lei de bases da saúde quando nessa mesma saúde faltam as bases e sobram as leis por cumprir?

No entretanto saltei a parte do erro médico porque não há pergunta que me ocorra perante a abordagem da dita senhora a este tema. Limito-me a deixar esta imagem.

Mas não me contenho a mais perguntar, diga lá Sra Ministra quantas vezes 400 está disposta a ofertar para a exclusividade dos seus médicos pagar?

Já comecei a rimar, mas a indigestão essa não há meio de passar.

Tento despir a farda ao mesmo tempo que o orgulho que sinto ao usá-la, distanciar-me o quanto baste para poder ver além do que espetam em frente aos meus olhos.

Sim, sou enfermeira.

Sim, apoio a greve cirúrgica.

Sim, peço sinceramente desculpa por todas as cirurgias adiadas e todos os transtornos causados aos nossos utentes que são, sem dúvida, os principais lesados nesta situação.

Sim, percebo que alguns não compreendam, que não apoiem e que aceitem as nossas reivindicações.

Mas não posso deixar que pisem e que voltem a enxovalhar em praça pública a minha classe.

Sra Ministra e Sr. Primeiro Ministro antes de virem afirmar que somos selvagens e falar do número de cirurgias adiadas nesta greve apenas e só para deslocar o foco, virar o tabuleiro e colocar a culpa nos enfermeiros deviam a bem da verdade justificar os tempos de espera médios e as listas intermináveis de doentes para operar que se arrastam há anos, muito antes de os enfermeiros sequer terem começado a lutar pelos seus direitos e de como para melhorar as listas criaram suplementos (leia-se mais dinheiro) para que as equipas do bloco aumentem o número de cirurgias.

Aproveitem e justifiquem também aos portugueses como agora em plena greve cirúrgica os serviços se estão a organizar e estão a ser criteriosamente escolhidos os doentes que são prioritários nomeadamente doentes oncológicos. COMO é necessário que isso aconteça só agora em vez de ser prática comum?

Sr Presidente da República como é possível que nos seus dias de 20h em que a sua hiperatividade (segundo as suas palavras) está no auge, tem tempo para ligar a dar os parabéns à Cristina Ferreira, para ler livros inteiros de enfiada, para dar a palavra de apoio aqui, ali e acolá, voar para o Panamá para ouvir em direto que as Jornadas da Juventude de 2022 são em Portugal e ainda não arranjou 5min, Presidente Marcelo, 5min do seu tempo para falar sobre os enfermeiros?

Sim senhores políticos os enfermeiros são 42 mil para pagar, mas serão exatamente também 42 mil a votar!

E por último, dizer ao Sr Miguel Sousa Tavares que, primeiro é impossível respeitar o trabalho dos enfermeiros quando a sua primeira abordagem é indagar sobre a hipótese de um médico recém-formado (a bem dizer, em formação) receber menos que um Enfermeiro, sendo a proposta de 1600€ de base. Um médico recém-formado é um interno do ano comum que não tem qualquer tipo de decisão clínica sozinho, que se encontra em formação, já agora completamente paga pelo estado português até ao término da especialidade (ao contrário da especialização em enfermagem que é paga do bolso de cada um!) recebe sim 1500€ mas no ano seguinte já salta de escalão para os 1800€ portanto não vejo qual é o busílis da questão.

Nunca em momento algum houve necessidade dos enfermeiros de se equipararem ao médicos mas quando diz que não se pode comparar porque os enfermeiros não fazem diagnósticos e não tomam decisões clínicas ou não prescrevem medicação, está completamente fora da prática hospitalar. Os enfermeiros fazem os seus próprios diagnósticos e com eles traçam um plano de cuidados individualizado para o doente. Tomam decisões, na prática são os enfermeiros que tomam mais decisões diretas até porque são os enfermeiros que estão à cabeceira dos doentes logo, até para que o médico venha ver o doente, muitas senão a maioria delas, houve uma avaliação prévia pelo enfermeiro que diagnosticou a alteração clínica do utente e que o faz decidir várias ações, sendo uma delas chamar o médico para avaliar clinicamente o utente (entretanto já posicionou o doente, avaliou sinais vitais, faz medicação SOS, etc).Só tem razão quando diz que não prescrevemos medicação, não prescrevemos mas administramos e somos responsaveis pela mesma. Assim sendo, não dá ao doente um diurético ou um anti-hipertensor sem lhe avaliar os sinais vitais pois tem conhecimentos de farmacologia suficiente para decidir se admistra ou não aquela fármaco naquele momento específico aquele doente em especial.

Depois não percebo quais são os hospitais que frequenta mas na realidade alguns enfermeiros mergulham sim em profundidade sempre que um doente necessita de realizar tratamento numa câmara hiperbárica. Sim também carregam pesos, o peso literal dos doentes quando precisam que alguém lhe altere os decúbito no leito para que não façam úlceras de pressão, que os ergam das camas para que possam deslocar-se em cadeiras de rodas ou para que possam comer e ver TV num cadeirão, fazem levantamento de politraumatizados em bloco milimetricamente para os transferirem da maca dos bombeiros para a cama do hospital e em seguida para a maca do RX/TAC para despiste e prevenção de alguma lesão grave. Que me lembre não trabalham debaixo de terra, mas muitos trabalham no pré-hospitalar debaixo de chuva, de frio extremo ou de calor abrasador e em condições que acredito para si sejam inimagináveis como uma urgência cheia de vírus, enfermarias cheias de isolamentos de contacto, ou em blocos operatórios onde participam em cirurgias que demoram por vezes 8h e onde ainda tem de vestir protetores de radiação que chegam a pesar 20kg.

E sim, somos ajudados pelos auxiliares de ação médica na higiene dos utentes mas esta é sempre realizada com a supervisão de um Enfermeiro e leia-se e entenda-se que mudar uma fralda e dar um banho a um utente acamado tem a sua ciência e é exatamente nisso que a nossa profissão tem a sua arte na capacidade de substituir, de se colocar no lugar do outro e realizar as tarefas/necessidades de vida básicas como a higiene a alimentação ou a mobilização de quem não as consegue realizar sozinho.

Se é preciso curso superior, uma licenciatura, um mestrado ou uma especialidade para mudar uma fralda ou dar um banho claro que não, mas é na proximidade desse contacto, no tempo que passamos com o utente, na possibilidade de lhe ver a pele, na mobilização dos membros que conseguimos avaliar mais fidedignamente o seu estado de consciência, de hidratação e de nutrição, se a função respiratória ou circulatória está mantida e eficaz ou se é deficiente, se o tónus muscular está mantido ou se já há rigidez articular e isto sim é avaliar o doente com um todo e não apenas como a soma das cada das suas partes.

Consegue entender agora? Posso informá-lo mais e melhor as vezes que precisar do que é a nossa prática diária de forma simples, menos mediática e gratuitamente e sem arrogância, presunção e água benta.

Até aqui dirigi-me formal e educadamente a cada um dos acima supra-citados não pelo respeito que merecem após terem todos, cada um de sua forma, desrespeitado a minha profissão mas porque apesar de não ter nenhum cargo político nem uma mãe sepultada no Panteão, fui ensinada a ser politicamente correta mesmo quando não concordo ou não me revejo nas palavras e ações do outro, o que parece que não é comum a todos.

Não sei, mas parece-me que a vossa indigestão será maior e mais demorada, agora que perceberam que há muito que os enfermeiros deixaram de ser as freiras do convento, as secretárias dos médicos e apenas e só advogados dos doentes, que estão cada vez mais aptos, mais bem formados e tornam-se diariamente peritos nas mais diversas áreas de assistência. E sim, também têm o dom da palavra, também descobrem formas inovadoras e pioneiras de luta, sabem expressar-se em bom português e compreendem bem os seus deveres por isso exigem os direitos inerentes.

Agora sim, muito obrigada Sra Enf. Lúcia Leite por mostrar aos Portugueses que os enfermeiros são educados, polidos, flexíveis, competentes e que só querem que de uma vez por todas sejam reconhecidos com tal. Não podia estar-lhe mais grata por me ter sentido tão bem representada, obrigada!

Sim, sou enfermeira.

Sim apoio a greve cirúrgica.

E sim, por agora a minha indigestão passou.

V.

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33 opiniões sobre “Indigestão Selvagem

  1. Acrescentaria um agradecimento e apoio incondicional à nossa bastonária, que tão corajosamente tem defendido a sua classe, sem papas na língua ou medo de expor “os podres”..!!
    Aparte disso, desabafo maravilhoso que tão bem esclarece o quão nobre é a nossa profissão. Partilharei!! Muito obrigada ❤️🙏

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  2. Cara colega
    Compartilho a sua opinião e a sua dor.
    Sou do tempo em que as enfermeiras eram isso mesmo, assistentes do sr. dr, freiras e também prostitutas. Tenho no meu currículo a recusa de coser um botão na bata de um médico. Tenho também uma luta constante de afirmação e promoção da Enfermagem.
    Muito obrigado pelas suas palavras!

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    1. Fui ler novamente todo o meu lindo texto para tentar perceber encaixa essa afirmação… E não encaixa, não encaixa no texto e muito menos encaixa ou encaixou na minha prática diária! Na saúde numa profissão nem ninguém é prescindível! Mas sou enfermeira e hei-de defender sempre a minha profissão, que outros tenham o mesmo empenho e dedicação a defender as suas! 😉 Obrigada 💙

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